Lado A e lado B

As duas faces de Belém Novo: um bairro muito conhecido por suas belezas naturais, mas que convive com problemas diários de infraestrutura

Belém Novo visto do morro da vila da amizade. Foto: Felipe Farias/LB
Belém Novo visto do morro da vila da amizade. Foto: Felipe Farias/LB

   A vida nasceu na água. O corpo humano, tão sólido na aparência, contém 60% de água. O planeta Terra, apesar do nome, tem 70% de sua superfície coberta de água. E Belém Novo não foge à regra. Aqui no sul do sul da cidade, praias não são águas passadas, mas águas presentes, pois o Guaíba continua balneável. O bairro inteiro é um presente das águas cobiçado por muitos. Principalmente porque, além de banho liberado e da paisagem de cartão postal, existem fatias de mata atlântica intocada, animais silvestres - alguns deles em vias de extinção - e um ar de terra natal capaz de proporcionar qualidade de vida aos seus moradores. O cenário seria perfeito caso não ocorressem tantos problemas de infraestrutura, incluindo, por ironia, a falta de água. Além, disso, há depredação do ambiente natural, transporte público precário, cortes de luz e descaso das autoridades que parecem considerar a região como o lugar onde "Judas perdeu as botas", colocando-a no final da lista das prioridades.
    Belém Novo, como todos já sabem, é muito conhecido por sua beleza natural. A volta do Veludo, as ruínas do Poleto, a Ilha das Pedras, a Ponta do Arado, e um dos pores do sol mais bonitos da capital gaúcha.
   Belém já foi a "praia" de Porto Alegre. Era um grande balneário, havia cinema, o hotel Cassino, clubes, grande parte dos moradores da capital veraneava em Belém Novo. Hoje, esse espírito praiano ainda existe no nosso bairro, só dar uma caminhada na "beira" em um dia quente de janeiro para notar ritmos de música diferentes que se misturam nos domingos na orla, a criançada brinca às margens do Guaíba enquanto as famílias estão assando um churrasco.
De uns tempos pra cá, Belém perdeu um pouco dessa essência rural e praiana, principalmente por causa do Plano Diretor que, em apenas 20 dias, mudou uma parte da zona do nosso bairro de "rural" para "urbana" o que levou a especulação imobiliária a se voltar para o bairro. Os problemas, como falta de luz e de água, a poluição do rio, também aumentaram nos últimos anos devido ao crescimento do bairro, agora considerado urbano.
   Acordar às seis horas da manhã, ou antes, para enfrentar mais de uma hora de viagem até o centro. Enquanto espera o ônibus, a calmaria, o ar limpo e o verde de várias árvores são fáceis de notar. Quase todos os moradores de Belém conseguem se ver nessa situação. Mas a calmaria acaba quando passamos o Tri na roleta e encaramos a longa viagem, na maioria das vezes tendo que pegar o famoso "Rápida 68" e mais um ônibus para chegar no trabalho ou na faculdade, já rezando para que na volta consiga achar um lugar para sentar ou um lugar para não ser amassado dentro do ônibus. Todo esse sofrimento foi um pouco aliviado quando as lotações chegaram no bairro, o que durou 20 anos para acontecer graças à luta da população belendrina. O potencial do transporte pelo rio é enorme e ele já existe na capital, com as estações do Barra Shopping e do Cais Mauá. Porque nosso bairro, banhado pelo Guaíba por quase todos os lados, não merece uma também?
   Belém Novo continua sendo um dos melhores bairros para se morar em Porto Alegre para quem procura qualidade de vida, mas tem potencial para ser ainda melhor se o poder público investisse na região, que carece de uma melhora urgente na sua infraestrutura.