O guardião do Guaíba

"Bagre" no clube naútico Belém Novo, local onde ministrava suas aulas foto: Matheus Piccini/LB
"Bagre" no clube naútico Belém Novo, local onde ministrava suas aulas foto: Matheus Piccini/LB

 por Cristina Salamão

    Júlio Silva de Oliveira (1960 - 2019), carinhosamente chamado pelos amigos de "Bagre", foi um icônico morador de Belém Novo, filho de Gumercindo de Oliveira (1918-1999) e Dercíria Silva de Oliveira (1919-1977), descendentes de antigos moradores da região, aqueles que a história muitas vezes não conta, tendo em vista a história de Belém Novo, que, segundo Dornelles (2004) foi cunhada a partir de um indivíduo apenas e adotada pelo grande público. Ignácio Antonio da Silva, considerado o patriarca de Belém Novo. É uma história alicerçada numa ótica individualista e elitista da compreensão da dinâmica social, alheia às noções mais plurais de coletividade e de processo histórico e uma perspectiva perpassada por uma concepção de mundo que denota autoridade e infalibilidade para um critério fundamental: a riqueza. esta história foi transmitida, através de artigos publicados na década de 70, por periódicos como "Correio do Povo". O fato é que existiam pessoas que construíram a historia, mas não ficaram na mesma, O velho Pituca é uma delas. Seu Gumercindo de Oliveira, o Pituca, foi um pescador famoso, personagem de muitas lendas do bairro, nascido na Ponta do Arado, dentro de uma canoa, morador de uma velha tapera as margens do Guaíba, onde hoje vemos uma figueira antiga, plantada por ele.

   Dizem que foi Pituca quem deu nome a Praia do Veludo, quando uma calça de veludo ficou envolvida na hélice de seu barco, considerado por muitos como o maior pescador com espinhel das colônias de pescadores Z4 e Z5. Dona Dercíria, por sua vez, passava muitas noites acordada, cuidando para que o nível da água do Guaíba não alcançasse a cama de seus 11 filhos. A família Oliveira, teve uma vida difícil, sua alimentação era precária, a base de peixe ou polenta, muitas vezes, Dona Dercíria adicionava no café, farinha de mandioca para alimentar melhor os filhos. Bagre cresceu interagindo com a natureza, seu pai lhe ensinou sobre as plantas, as árvores, as aves e os peixes, tornou-se um exímio conhecedor da biodiversidade local. Anos mais tarde, devido a transferencia das famílias ribeirinhas, para o Chapéu do Sol (Teletubies), Julio passou a prestar serviços para a comunidade. Daí surge o Projeto Pitucanoa, após a fundação do Clube Náutico Belém Novo, em novembro de 2004, Júlio em sua trajetória como pescador, percebeu que os peixes estavam desaparecendo do Guaíba, peixes que costumava ver seu pai pescar, como o Dourado, a Piava, a Corvina e outros, não mais eram vistos nas redes e linhas dos pescadores da região. Compreendeu então, que os problemas ambientais que a sociedade moderna causou, bem como a falta de recursos culturais e financeiros dos pescadores, como a pesca durante a piracema, e a insuficiência ou inexistência de educação ambiental nas escolas, eram alguns dos fatores que favoreciam estas mudanças ambientais negativas. Baseado nestas conclusões, Julio pensou em uma forma de salvar o ciclo natural dos peixes, prover um sustento digno para os pescadores na época da piracema, propiciando condições para que eles não precisassem voltar a pescar antes do fim do ciclo reprodutivo dos peixes, diminuindo a pesca das matrizes (peixes ovados), bem como ensinar práticas de educação ambiental e atividades profissionalizantes com atitudes e comportamentos ecologicamente orientados para as crianças, adolescentes e pescadores. Pensando nisso, Julio passou a salvar as mudas nativas que brotam na orla do Guaíba no início de novembro e que se não forem replantadas em lugares mais altos, serão levadas pela cheia do rio no inverno. Após a identificação e classificação destas mudas, estas são plantadas em vasilhames feitos a partir de garrafas pet e potes plásticos recolhidos periodicamente, por água pelos participantes do projeto, de ilhas e locais onde não existe coleta seletiva de lixo. Estas idéias começaram a ser levadas para a comunidade, reunindo os pescadores e as crianças, no turno invertido a escola, na sede do Clube e ensinando a elas fundamentos de ecologia, pesca artesanal e cultura náutica.
     Em meados de 2017, Bagre foi acometido por um câncer que o levou a morte no dia 12 de janeiro deste ano, deixando a natureza do nosso bairro sem o querido "Guardião do Guaiba - O Benfeitor da Natureza", referência a reportagem do Jornal Diário Gaúcho de 20 de janeiro de 2016. Estima-se que Júlio tenha plantado pessoalmente, mais de 500 mudas de árvores nativas no Bairro e seus arredores durante o Projeto, e produziu outras milhares de mudas, que foram distribuídas para a comunidade e participantes, sem contar as figueiras históricas de Belém, plantadas pelo velho Pituca. Seu Projeto, alcançou reconhecimento internacional, obtendo apoio de grandes personalidades como: Bebeto Alves e Alemão Ronaldo, e empresas, tais como os Correios, RBS e mais recentemente a UBER, pelo seu trabalho de preservação do meio ambiente. Bagre, sem dúvida, exerceu uma influência positiva e importante para que nossas crianças vislumbrem um mundo melhor e tenham a chance de conhecer toda beleza e diversidade que ainda podem ser salvas através de práticas como as do Projeto Pitucanoa.