PARATODOS

    Nós, brasileiros, somos uma salada de frutas com legumes, um coquetel, um mosaico, uma colcha de retalhos. O Rio Grande do Sul é uma babel étnica habitada por descendentes de italianos e alemães - emigrados no final do século XIX -, sem falar nos libaneses, espanhóis, poloneses, judeus, franceses e, é claro, os invasores portugueses, os africanos escravizados e os povos originários. Superamos Chico Buarque que, na música Paratodos, canta: "Meu avô, pernambucano/ O meu bisavô, mineiro/ Meu tataravô, baiano".
    Aproximando mais o foco geográfico, constatamos que Belém Novo não é diferente, pois na formação do bairro existe a presença de antigos habitantes de Laguna, por exemplo. O próprio patriarca, Ignácio Antônio da Silva, era "natural da bandas de Viamão", como registra a coleção "Memória dos Bairros", organizada pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Dito isso, existe algo mais insensato do que dividir uma população entre nativos e forasteiros?
    Os rótulos, desde sempre, serviram para dividir grupos de pessoas, gerando preconceitos, conflitos e até guerras. Um filme emblemático a respeito, "Gangues de Nova Iorque", de Martin Scorsese, mostra o banho de sangue resultante de tal rivalidade entre castas. E este é apenas um pequeno recorte histórico reprisado ao longo dos séculos, dos países e dos continentes.
    A cisão dos povos foi um dos ingredientes da perseguição aos judeus, aos ciganos e a outros grupos que, na insana fantasia de um desvairado, "sujavam" a raça pura ariana, na Alemanha nazista. Também ergueu o muro na fronteira entre o México e os Estados Unidos, representando o alimento principal da rejeição e do massacre aos imigrantes fugidos da guerra ou da fome.
    Forasteiro, invasor, nativo. O que significam essas palavras? Quem é herói, quem é vítima, quem tem mais direito? Ou melhor: qual o direito, seja ele qual for, está acima do direito humano de existir, buscando uma vida melhor, mais digna, mais pacífica? Se existe um mútuo interesse pelo bem comum compartilhado entre dois seres, será assim tão importante o local onde cada um deles veio ao mundo?
    Ao pé da letra, os únicos verdadeiramente nativos são os indígenas e, mesmo assim, têm, cada vez mais, suas terras saqueadas e seus líderes desrespeitados, assassinados. E ainda precisam ouvir o ministro da Educação, Abraham Weintraub, gritar em praça pública (Alter do Chão, distrito administrativo do município de Santarém, no Pará, dia 2 de julho) "Quem roubou o Brasil foram vocês!"